A combinação de temperaturas recordes, chuvas intensas e inundações vem afetando importantes regiões agrícolas da China desde meados de julho. Os eventos atingem áreas produtoras de milho, soja e algodão e aumentam as incertezas sobre a safra 2026/27, principalmente em relação à produtividade e à qualidade dos produtos.
No nordeste do país e na Planície do Norte da China, o calor extremo coincidiu com fases importantes do desenvolvimento das lavouras, enquanto províncias como Heilongjiang enfrentaram chuvas intensas e inundações. Em Xinjiang, responsável por mais de 90% da produção chinesa de algodão, o problema tem sido a combinação entre temperaturas elevadas e escassez de chuvas.
Embora ainda seja cedo para dimensionar as perdas, uma eventual redução da produção ou da qualidade pode levar a China a ampliar suas compras no mercado internacional, especialmente de grãos destinados à alimentação animal.
Esse movimento, inclusive, já aparece nos números. Entre janeiro e julho de 2026, as importações chinesas de milho cresceram 61,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. As compras de sorgo avançaram 86,2% e as de cevada, 53,4%. No algodão, as importações dos primeiros sete meses do ano chegaram a 1,02 milhão de toneladas, praticamente o mesmo volume adquirido durante todo o ano de 2025.
Para a soja, a relação entre os problemas da safra doméstica e as importações é menos direta, já que a produção chinesa é destinada principalmente à alimentação humana, enquanto a soja importada atende sobretudo à fabricação de ração.
A situação ganha relevância pela dimensão da China no mercado global de commodities. Caso as perdas se confirmem, uma maior necessidade de importação pode alterar fluxos comerciais, aumentar a disputa entre fornecedores e influenciar preços internacionais.
Para o Brasil, um eventual aumento da demanda chinesa merece atenção, especialmente diante da importância do país asiático como destino das exportações do agronegócio brasileiro. A dimensão dessa oportunidade, porém, dependerá da extensão dos danos à safra chinesa e das condições de preço e oferta no mercado internacional.
Mais uma vez, o clima aparece como uma variável importante para o comércio exterior. Eventos concentrados nas regiões produtoras podem rapidamente repercutir sobre demanda, preços e fluxos globais de commodities.
